MÓVEL QUE FALA DE AFETOS (24 de junho de 2007)

Cadeira PegLev do designer francês
Michel Arnault, madeira maciça
tonalizada e couro, é simples e confortável
Poltrona Gaivota, do designer
Reno Bonzon, feita de madeira compensada


Cadeira de balanço em estilo colonial brasileiro

De vime e junco, da Armando Cerello

Cadeira original de balanço RAR, de Charles e
Ray Eames, que esta na MoMA em Nova York
Modelo criado por Michael Thonet
é do começo do século, pode ter diferentes
formas de vergado e tornou-se popular no mundo inteiro

          

Há quatro séculos, a cadeira de balanço mexe com a imaginação de quem a constrói e de quem a usa.

A da cadeira de balanço não é apenas uma estória de preguiça, sonho e nostalgia. Apesar de ser uma peça de mobiliário sem função essencial, há mais de quatro séculos ela provoca o desejo e atrai a imaginação de usuários, fabricantes de moveis e designers. Quem vê uma delas não resiste em sentar-se e balançar, e a desculpa muitas vezes é que ela pode adicionar ao ambiente um toque de charme e de descontração ao se destacar dos demais sofás, cadeiras e poltronas.
Para muitos a cadeira de balanço ainda é coisa de comadres bordando, de bisavó ou das avós de antigamente que nela recostadas costumavam contar aos netos lendas e histórias do passado. De fato, ela pode inspirar a poesia brega tipo “em seu regaço me refaço / é onde repouso o meu cansaço” ou “vô a coxilar após o almoço / vó a costurar fuxicos” ou os versos soturnos de Mario Quintana onde “na velha cadeira de balanço em que a morte as embala.” Já a outros ela vai inspirar imagens afetivas de outra ordem, como a da mãe que ninava e amamentava o filho ou de crianças brincando de balançar.
Em inglês, cadeira de balanço se diz “rocking chair”, do verbo “to rock”, que por sua vez vem da palavra “rocker”, surgida no século XV para nomear a pessoa encarregada de balançar os berços dos bebes. Mais tarde o termo passou a ser usado também para denominar aqueles oradores que deixavam os ouvintes com sono. A idéia de adicionar barras curvas aos pés de cadeiras para que elas pudessem balançar, no entanto, só surgiu no inicio no século XVIII, tanto que a primeira citação oficial à cadeira de balanço é de 1787 e foi feita no Dicionário Oxford de inglês.
Rapidinho ela entraria na história junto com seus famosos proprietários. Consta que Napoleão tinha a dele no quarto de dormir em sua casa na ilha de Elba e que Mark Twain preferia a sua no pátio. No museu Casa de Rui Barbosa na Bahia, a cadeira de balanço que pertenceu ao político brasileiro é uma das atrações. E foi numa bem acolchoada que Abraham Lincoln sentou-se no dia em que foi assassinado. Já a de John Kennedy tinha as costas bem retas devido as suas conhecidas dores nas costas. A preferida de Picasso era uma autentica thonet e em ao menos dois de seus quadros ele as pintou à sua maneira distorcida e abstrata.
Da história da decoração, apesar do vai e vem das modas, ela nunca desapareceu e ao que parece, a ver pelo interesse que despertou nos grandes nomes do design do século XX e ainda desperta nos jovens designers de hoje e no público em geral, a cadeira de balanço não pretende sair de cena. No princípio elas eram apenas convertidas, somente uma questão de fazer balançar velhas cadeiras. Em seguida passou-se às verdadeiras. Eram de madeira pintada. As primeiras feitas na Suécia onde a palavra para denomina-las é “gungstols”, tinham quatro ou seis pernas e eram em geral pretas com frisos dourados. Talvez um dos exemplos antigos mais conhecidos seja a americana “Windsor”, levada pelos ingleses para as suas colônias por volta de 1750 e que ganhou feições diferentes de acordo com o posicionamento das varetas do encosto. A primeira produzida em massa surgiu em 1840 e se chamou Boston rocker. Tinha o espaldar bem alto, braços e quase sempre eram pintadas de preto ou branco e decoradas com stencil. Surgiram em seguida, também nos Estados Unidos, aquelas feitas pelos Shaker, que ainda fazem sucesso, são simples, funcionais e destituídas de qualquer enfeite. As de vime também eram populares no século XIX e a primeira em metal, mais precisamente em ferro, surgiu em Londres, ao ser exposta na Great Exhibition em 1851.
A madeira era ainda, no entanto o material por excelência e era justamente como trabalhar com ela de forma leve, mais barata e como bem verga-la o que tentava com sucesso o famoso austríaco Michel Thonet e que produziu talvez a mais famosa e copiada cadeira de balanço de todos os tempos. Em varias versões e diferentes vergaduras ela pode ter assento de palhinha ou mesmo ser acolchoada com couro.
E antes de chegarmos a era modernista quando Le Corbusier, em colaboração com Charlotte Perriand, produziu o primeiro exemplo feito com tubo de aço curvado, passou-se no final do XIX e comecinho do século XX pela fase “revival”, quando se inventavam cadeiras de balanço que iam do estilo neoclássico ao renascentista e do chippendale ao colonial. Nos Estados Unidos, enquanto na Europa o art nouveau ainda agradava, fazia muito sucesso o estilo “artes e ofícios” quando se utilizava o pesado carvalho, formas simples e retas, e o designer mais famoso era Gustav Stickey. No Brasil, em versão madeira e palhinha, ideais para o nosso clima quente, surgiram as coloniais portuguesas, muitas feitas em jacarandá, e que hoje alcançam altos preços e são muito procuradas por colecionadores de mobiliário antigo brasileiro.
Por volta de 1929, enquanto Le Corbusier e Perriand apresentavam a sua no Salão de Outono em Paris, Charles e Ray Eames desenhavam cadeiras de balanço para a Herman Miller em quatro novos materiais; madeira moldada, fibra de vidro reforçado com plástico, arame torcido e cromado e alumínio numa tentativa de encontrar um material que suportasse o corpo humano sem se ter de apelar à estofaria.
Desde então foram muitos os que tentaram versões inovadoras de cadeiras de balanço. Ralph Rapson criou a “rápida” para a Knoll, Willy Guhl fez a “Loop” em cimento e fibra para uso externo. Noguchi fez um banco que balança. E em linguagem cada vez mais contemporânea Achille e Píer Giacomo Castiglioni fizeram o banco “Sella” com um assento de bicicleta preto sobre uma coluna em metal cor de rosa. Verner Panton fez a “Relaxer 2”, um semi-circulo com almofadas e sem braços. Frank Gehry criou a sua em papelão corrugado reforçado e também Ron Arad, Philippe Starck e Tom Dixon se dedicaram a inventar as suas próprias; de dobrar, com traços retro ou coloridas.
No Brasil os nossos designers não deixaram por menos. A de Oscar Niemeyer criada com sua filha Ana Maria é um belo exemplo que certamente veio para ficar. A de Joaquim Tenreiro, de 1948, de madeira e palhinha, é linda e raridade, e a de Reno Bonzo com ripas e madeira vergada continua agradando. Também Pedro Useche fez a sua Mesedora Longa em aço inox, vaqueta e cumarú. E quantos mais não poderíamos citar?
Os varejistas das grandes cadeias de moveis como Habitat, The Conram Shop e Ikea prevêm uma grande demanda para modelos modernos e adequados a leitura, ao relax diante da televisão e como alternativa para as poltronas convencionais na decoração. Uma prova que entre brinquedo e prazer, e independente da sua maior ou menor funcionalidade, a cadeira de balanço ainda apela à emoção e à experiência sensorial.

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