HISTÓRIA PARA LER NA CAMA (05 de agosto de 2007)
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| Lit de repos, criação de Charlotte Perriand |
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| Retrato de Madame Récamier a pintado por David e exposto no Museu do Louvre |
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| Cama mineira de Paracatu, do século 19 |
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| Cama de 3 metros de altura, modelo do século 18 |
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| Cama inglesa de campanha dobrável com estrutura de ferro e pés de latão, que pode se transformar ora em cama, ora em chaise longue ou poltrona |
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| Cama francesa estilo Império, de linhas retas e pouco ornamento |
A história desse móvel acompanha a da civilização – peça que continua evoluindo, na forma e no material.
É a história da cama, portanto uma velha historia de amor, de sono e de preguiça. Desde tempos pretéritos, dos egípcios com seus catres ou dos europeus com seus “ lit en bateau”, a “la turca”, a “la duchesse”, de alcova ou de dossel até as nossas redes nordestinas, houve delas para qualquer gosto e paladar. Largas como praças, enfeitadas como coreto de festa municipal, suntuosas em bronze ou prata, austeras e duras como pau de extrair pecados como a dos franciscanos, ou improvisadas em chão de feno em horas de paixão. Havia que servir à ocasião e agradar não só ao corpo e ao espírito mas também ao olhar.Quando nos damos conta que o homem passa um terço de sua vida deitado, a elaboração e feitura de uma cama passa a ser de primordial importância. Ao longo de sua horizontal trajetória, não importa se mais ou menos luxuosa, se de bom ou mau design, a cama vem cumprindo o seu papel. Naquelas mais nobres, belas, emplumadas ou, para ganhar ainda mais imponência, postas sobre um tablado, podiam nascer os filhos de reis e rainhas diante de uma corte testemunha. Nos haréns de múltiplas mulheres, os sultãos, nizans e marajás nelas passavam, entre cortinados, sedas e brocados, boa parte de seu tempo. Serviram também de apoio ao sacrifício de faquires, religiosos e prisioneiros, de palco em quartos espelhados de motel, assim como induzem ao sono em spas e ressorts e dão conforto em hospitais.
Mesmo depois que os quartos de dormir foram liberados dos pesados guarda roupas, criados mudos e penteadeiras da primeira metade do século passado, a cama continuou absoluta, se fazendo impor e ocupando cada vez mais espaço. Primeiro eram as bem estreitas dos tempos coloniais, boas para noites frias em que os casais enroladinhos podiam se esquentar, um tamanho que hoje chamaríamos “plaza y media” ou de viúvo. Depois as populares de casal de um metro e trinta. Hoje a “king” é a preferida, com seus quase dois metros de largura e comprimento, grande objeto de desejo. Ninguém, no entanto, vai poder reclamar de uma boa “queen” com seus mais ou menos metro e sessenta de largura.
Imprescindível desde sempre, trata-se da peça de mobiliário onde mais dinheiro se gasta e gastaram nossos antepassados. A estória da cama teria começado no Egito dos Faraós. Entre os tesouros da tumba de Tutancamom ainda existe uma cama dobrável, em madeira pintada de branco, idealizada, presume-se, para uso em viagens e na guerra, e que até hoje, apesar de sua antiguidade, pode ser reduzida com facilidade a um terço de seu tamanho.
Todo o esplendor de que eram revestidas as camas primitivas, dos egípcios, babilônios, persas, assírios, gregos e etruscos, foi herdado pelos romanos que em seu afã de extasiar conseguiram dar à cama ainda maior riqueza. Houve quem as fizesse de prata maciça. Possuir uma “cama principal” era sinal de prestigio da familia. Nela dormiriam os hospedes reais e em torno dela aconteceriam nascimentos, casamentos e velórios.
O apogeu ornamental da cama aconteceu no século XVIII. Foi quando elas começaram a ser recobertas, não só pelos mais finos tecidos como também por pedrarias. Ganharam cabeceiras estofadas e criou-se o dossel com quatro estacas de madeira, um teto e pesados cortinados, a principio como proteção contra o frio. Na medida de uma maior ou menor demonstração de riqueza serviam para indicar o status econômico de seus donos. Com seus drapejados, babados, aplicações em passamanaria e bordados com seda e fio de ouro ficaram associadas mais à arte da tapeçaria do que ao trabalho dos famosos marceneiros das cortes europeias. No entanto, mais para o final desse mesmo século as camas com madeira aparente voltariam a moda, com tecido apenas nos detalhes. As casas então já melhor construídas e com quartos menores do que os dos palácios podiam também dispensar a cama cortinada. O que não impediria que, apesar de novos tempos e costumes, velhas modas reaparecessem como a da cabeceira estofada, ou encapada com laços e botões, tão mais confortável e que já foi bem alta e com recortes estilosos; ou bem baixa com geometria moderna e agora alta novamente em versão contemporânea podendo até ultrapassar a largura do estrado
Em tempos bonapartistas, Napoleão encarregou o pintor David de criar um estilo que glorificasse suas façanhas, o que fez com a ajuda de desenhistas como Percier e Fontaine, decoradores da Malmaison, a casa que comprou ao se casar com Josephine. As vitórias napoleônicas na Itália e a Campanha do Egito inspiraram as figuras e símbolos que passaram a decorar as camas nesse estilo dito império, como esfinges, pirâmides, tochas, folhas de acanto, cariátides e animais mitológicos. Atribui-se a Jacob Desmalter o desenho do famoso “lit de repôs”, “turquoise” ou cama turca onde na famosa pintura de David , hoje no Museu do Louvre, está reclinada a bela Madame Recamier, conhecida anfitriã à época. Já no século XIX , quanto mais se impunha o estilo da era napoleônica, as camas passaram a ser encostadas horizontalmente à parede e apenas um dos lados ganharia os típicos enfeites de bronze. A esse tipo de cama deu-se na França o nome de “lit en bateau” e na Inglaterra de “grecian beds”. Nessa mesma época e em estilo menos bonapartista e mais colonial como o que nos coube melhor, além das de dossel de madeira, também aqui pegou em cheio a moda da cama de encostar em sentido horizontal e a desculpa para a não ornamentação do lado contra a parede seria que apenas o lado da mulher deveria ser enfeitado.
Foi numa grande exposição em Londres em 1851 que surgiram as camas de ferro. Não era propriamente uma novidade pois na Itália, em 1644 já se havia delas fabricado como sendo a única solução para as traças. No século XVIII as de ferro batido e detalhes em bronze foram de fato as mais adotadas. Houve também as camas de campanha com estrutura em metal, articuladas e com colchão dobrável ou almofadas separadas que podiam viajar e transformar-se em poltrona ou chaise longue.
Em 1900 o Art Nouveau passa a ser moda e produz estranhos modelos que muito impressionaram mas não tiveram vida longa. Viria em seqüência, entre os mais conservadores o art decô, resistindo ao modernismo que vinha forte ao embalo do novo século e que marcara presença definitiva em 1925 numa grande exposição em Paris que lançou modelos até hoje desejados e nomes cada vez mais famosos como os de Eileen Gray, Le Corbusier e Charlotte Perriand. Em outros paises europeus figuras como Hoffmann, Ruhlmann e Mackintosh também se dedicavam em fabricar camas ou qualquer tipo de móvel em madeira e com formas geométricas e simplificadas para um mundo novo, mais funcional e onde menos ornamento significaria mais valor. Dai para a frente a historia já é nossa e conhecida. E durma bem.






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