HADLEY, MARCA DE UM ESTILO (19 de agosto de 2007)

Hall de entrada da Parish-Hadley Inc.,
no Fuller Building, na Madison
Avenue: contemporâneo e colorido
Apartamento de Hadley em
Nova York na fase prateada

Apartamento de Hadley em
Nova York na fase prateada
Ambiente com bandeaux,
como os do palácios venezianos,
e capas nos sofás, típicas do período vitoriano

Canto do quarto de vestir de Hadley,
tinha um carpete de borracha vermelho
e, sobre ele, o tapete preto e branco
Albert Hadley

          

Aos 86 anos, Albert Hadley, que usou e abusou das cores é exemplo de que a elegância não se aprende na escola.

Albert Hadley, decano dos decoradores americanos do século XX tem hoje 86 anos e continua na ativa, viajando para supervisionar projetos e generosamente não se esquiva de dar conselhos aos mais jovens.
Nascido em Nashville, no Tenessee, ainda guarda o jeito sulino de falar e continua vestindo o que virou sua marca, as calças de flanela cinza, o sueter de gola roule de cashmere preto, meias vermelhas, os óculos grandes e redondos a la Corbusier. Já se foi, no entanto, o tempo em que fumava, um atrás do outro, seus Camel sem filtro.
O primeiro contato com o glamour, o estilo e o design foi na infância, durante as matinês em que assistia aos filmes em que estrelavam Joan Crawford, Greta Garbo e Katherine Hepburn. Mais tarde Hadley diria que ver filmes em preto e branco liberava sua imaginação para brincar com as cores que ele veio a usar e abusar de uma forma bem americana e muito própria.
Ainda em sua terra natal, no primeiro emprego com o decorador Herbert Rogers, descobriu que a decoração de interiores seria o seu caminho. Seguiu entnao para Nova Iorque em 1947 para ver de perto os então famosos no ramo como William Pahlman, Rose Cumings e Ruby Ross Wood que tanto admirava, e para cursar a Parson’s School of Design onde acabou virando professor.
Sob a mira do glamuroso reitor Van Day Truex, então um ícone de refinamento e bom gosto, aprendeu teoria e desenho, e também que estilo e elegância não se aprendem na escola. Importante é saber enxergar: -“A maioria das pessoas olha para muita coisa mas não vê. O olhar é um processo emocional, enquanto ver é processo intelectual. É preciso um esforço concentrado para absorver a essência de um projeto”, diria Albert Hadley mais tarde.
Ainda na Parson’s chamou a atenção do decorador Billy Baldwyn, vinte anos mais velho, profissional já conhecido e que se tornaria um grande amigo. Ainda em seus começos e com pouco dinheiro, Albert ganhou de Billy para o seu primeiro apartamento alugado em Nova Iorque, uma escrivaninha diretório que o acompanha até hoje. Depois, ao longo da vida, o próprio apartamento e suas casas de campo lhe serviriam de laboratório. Sem medo de experimentar forrou paredes com papel kraft ainda nos anos cinqüenta e foi dos primeiros a usar sisal como carpete. Nos anos 60 tinha em casa um lustre veneziano vermelho, hoje tão na moda, uma mesa de espelho também vermelha com frisos dourados, assim como aquelas colunas de gesso branco em forma de palmeiras usadas por Syrie Maugham em suas decorações nos anos trinta, desenhadas por Emilio Terry, feitas por Serge Roche e que haviam pertencido a Elsie de Wolfe. Essas referencias ao passado e à fantasia que tanto o encantavam eram a substancia de seus projetos, sempre adequados a uma realidade americana enriquecida, sofisticando-se e em mutação. Houve um tempo em que a casa de campo ganhou paredes brancas, chão preto com peles de vaca em branco e preto e sofá amarelo com almofadas também em branco e preto. A cozinha teve o seu período de paredes pretas e portas vermelhas. Mais tarde as salas de visitas do apartamento de Nova Iorque teriam as paredes prateadas, o chão pintado de um preto esmaecido e decorado com desenhos feitos com stencil. A ousadia e a coragem de mudar eram um traço de sua personalidade. Sabia conquistar a confiança dos clientes e vender-lhes suas idéias. Didático, e apesar de dotado para o desenho, dizia que “apresentar um projeto não é apenas oferecer um cenário, mas um ponto de vista”
Logo ao deixar a Parson’s, nos anos cinqüenta, Albert Hadley foi convidado pela decoradora e membro do conselho da escola, Eleanor Brown, figura baixinha, determinada e sempre de chapéu, para se juntar ao time de mulheres da McMillen Bronwn Inc, empresa fundada nos anos XX e que existe até hoje, o primeiro empreendimento de grande porte nesta área nos Estados Unidos. Ali, onde aprendeu gerencia, planejamento e a instalar um projeto em todos os seus detalhes, teve contato direto com os artesãos e chamou a atenção de muitos clientes, permaneceu por quase cinco anos. Um dia leu no jornal uma frase de Eleanor dizendo que as mulheres eram muito mais competentes e capazes do que os homens. Decepcionou-se e partiu para a próxima e aventura profissional que viria a durar 32 anos.
Albert Hadley, em 1962, veio a cair feito luva no sofisticado mundo de uma outra mulher, Sister Parish, amiga e decoradora de Jackie Kennedy, Brooke Astor, Babe Paley, Happy Rockfeller e tantos outros de sua mesma estirpe. Sister ou Mrs Henry Parish II já havia declarado que fecharia o negocio caso não encontrasse alguém para ajudá-la. Menos de um ano depois do primeiro encontro nascia a Parish-Hadley Inc, com capacidade para executar projetos em grande escala e se estabelecia uma relação às vezes conflituosa mas muito rica e que durou até a morte de Sister em 94. Modernidade e organização passaram a fazer parte da vida desta decoradora autodidata que até então confiava apenas no olhar e na intuição, não fazia plantas baixas e guardava as notas que teria de apresentar aos clientes em pequenos envelopes.
De saída Hadley se viu às voltas com Jackie Kennedy na Casa Branca em Washington terminando o que a nova sócia já havia começado. No entanto o primeiro trabalho a quatro mãos entre Sis, que é como ele a chamava e Hadley, foi o apartamento na Park Avenue de Ann e Edgar Brofman, dono da Seagram. Albert ouvia as idéias de Sister, tomava notas, palpitava apenas quando perguntado e já calculavam a metragem do chintz necessário quando chegou um telegrama do México onde os novos clientes passavam férias, dizendo que parassem tudo pois o que queriam era um apartamento com paredes que flutuassem. Sister, sem entender o que aquilo queria dizer, foi socorrida por Albert que rapidamente propôs substituir paredes por divisórias de vidro, ou não deixar que elas encostassem no chão ou no teto, colocar travertino no piso e na nova escada solta e mais moderna, assim como forrar de espelho bizotado as paredes do hall de entrada. Sister, habituada a em geral não interferir na estrutura das casas e apartamentos de seus clientes, se encarregou do que sabia e gostava, ou seja buscar as mais belas e valiosas peças de mobiliário que pudesse encontrar. No novo e arejado ambiente “as cadeiras e os moveis pareciam esculturas” constatou feliz.
Juntos fizeram o apartamento na Quinta Avenida de Babe e Bill Paley, onde as paredes ganharam dez camadas de laca amarela no tom dos táxis novaiorquinos , um pano de fundo ideal para a lareira italiana de madeira do século XVIII, dois grandes biombos coromandel, um Matisse e um grande lustre de cristal regência. As velas nos candelabros seriam pretas como Hadley aprendeu com Rose Cumming com quem costumava almoçar, ela velhinha e muitas vezes vestida com restos de cortinas, e ele ainda jovem professor na Parson’s.
Brooke Astor, recém falecida e grande dama da sociedade americana então, ao ouvir as propostas de Hadley, desistiu de um projeto já encomendado a Geoffrey Bennison e permitiu que ele fizesse em seu apartamento na Park Avenue onde os apartamentos tinham um falso estilo francês, apelidado pelos críticos de “Park Avenue french”, uma biblioteca bem século XX, com estantes embutidas de alto a baixo em laca vermelha e frisos de metal dourado horizontais. Super fotografada em livros e revistas de decoração, é considerada junto com a biblioteca de laca marron café e estrutura em latão também dourado feita por Billy Baldwyn para o apartamento de Cole Porter, uma das duas mais belas e memoráveis bibliotecas da estória da decoração no século passado.
Nos anos sessenta e setenta a dupla Parish-Hadley era o que havia de mais “inn”. A mantra de Hadley era simplificar. Ao desenhar um ambiente, ficava clara a distinção entre arquitetura e decoração. Com talento misturava o clássico com o anti-clássico. Havia que brincar com a estética. O resultado tinha de ser original, o cliente tinha de se sentir alguém muito especial num ambiente só dele. Menos podia às vezes ser mais mas também podia ser de menos.
Aos jovens decoradores sugere que se fundamentem, por exemplo, estudando a Grécia clássica, o período neoclássico do século XVIII e a primeira metade do século XX. –“Que não vejam nisso nostalgia uma vez que nada é mais excitante do que o novo. Mesmo que você construa em cima do passado você jamais retornará a ele. Sem fundações, no entanto, a casa cai.”

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