FEITA DE DRAMA E ESTILO (25 de novembro de 2007)
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| Croqui de Ruby sobre a sala de um cliente em Palm Beach - piso de mármore cor de pergaminho, mesa Luís XV coberta de couro e debrum brancos e detalhes em madeira bem clara |
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| Croqui salão neoclássico, ainda em Palm Beach |
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| Living de um apê em Nova York, em que Ruby introduziu elementos art déco |
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| Ruby |
Assim era Ruby Ross Wood, uma das mais importantes decoradoras americanas do século 20.
A legendária Ruby Ross Wood, com seus oculinhos de lentes cor de rosa e suas barulhentas pulseiras de balangandãs, era impaciente, fumante inveterada e tinha as respostas sempre prontas na ponta da língua. Não era uma tarimbada figura do jet set internacional como Elsie de Wolfe, nem uma bela divorciada como Dorothy Draper, nem tão pouco glamurosa como Rose Cumming, figuras icônicas dessa fértil safra de decoradoras da primeira metade do século XX. Uma conhecida especialista em design de casas, é como a nota no jornal anunciando seu casamento a descrevia em 1924, em lugar de citar-lhe a origem familiar como era, então, de costume.Nascida em Monticello, a terra de George Washington, em 1880, foi bem jovem para Nova Iorque para ser repórter. E como tal, na revista feminina The Delineator, lhe foi dado ser a ghost writer da coluna da já famosa e temperamental mas nada articulada , Elsie de Wolfe. Coube a Ruby também, escrever o primeiro livro assinado por Elsie, A House in Good Taste. Não tardaria, no entanto, a hora de escrever o seu próprio, que ganhou o nome um tanto esdrúxulo de “A Casa Honesta”, mais um manual cheio de sins e nãos sobre como construir e mobiliar casas pequenas. Também nos artigos que escreveu em diferentes revistas até o fim da vida, nunca hesitou em dar as suas próprias opiniões, criticar o que julgava serem maus passos estéticos de arquitetos conhecidos e fazer ousadas sugestões em como remedia-los. Tinha estilo, drama e refinamento mas sempre fez questão de resistir ao excesso de influencias européias em prol do que fosse um look de fato americano e puritano.
Ainda bem jovem, em 1914, para justamente poder colocar na pratica tantas e borbulhantes idéias, decidiu abrir loja, a Modernist Studio. Ainda não havia espaço nos Estados Unidos para interiores inspirados nas idéias de ponta da Wiener Werkstatte, mas Ruby Ross Wood encontrava o seu nicho. Intrépida, embora outros também se dissessem pioneiros, foi ela quem descobriu os moveis de estilo etrusco do ainda então pouco conhecido Marc du Nicolas du Plantier. Foi ela também a primeira a importar os algodões de cores vibrantes de Paule Marrot , a adotar o uso de tapetes geométricos marroquinos marrons e brancos, a usar em frente a sofás as minimalistas mesas “parson” e a forrar cadeiras e poltronas em casas na cidade com tecido de colchão.
O que fugisse às normas era com ela. Em sua loja e em seus projetos haveria de entrar o que fosse excêntrico, o que tivesse ao mesmo tempo estilo e originalidade. Em uma de suas primeiras casas de fim de semana, um cottage em Forest Hill Gardens, pintou as paredes da sala de cinza chumbo e forrou o grande sofá com veludo cor de laranja. No andar de cima, um feio tapete que ganhou de casamento foi tingido de preto e serviu para complementar um papel de parede japonês.
Gostava de fazer casas de campo. Dizia que nelas era possível se ousar mais pois a pessoa não ficava ali tempo suficiente para cansar. Não hesitava em exagerar nas cores e em moveis com formas inusitadas. Na Florida quase enlouqueceu o arquiteto de uma casa em estilo espanhol ao pintar os tetos com cores claras e alegres. Caso não encontrasse o tecido adequado, o linho e o algodão seriam por ela tingidos nos tons desejados e gostava de usar a despojada seda selvagem. Tentava, como ela mesmo dizia, acalmar a então reinante “orgia do falso e do fantástico” tão ao gosto dos novos ricos americanos.
Em 1935 Ruby, ainda no auge da carreira, passou a trabalhar com Billy Baldwin numa parceria que iria durar até a sua morte em 1950. Segundo o decorador Marc Hampton, ao escolher Billy, Ruby foi visionária, pois assim garantiu um sucessor que continuaria a honrar os seus pontos de vista em matéria de decoração por mais uns bons vinte e cinco anos com clientes inclusive ainda mais famosos como Diana Vreeland e Cole Porter. Formou-se assim a talvez mais bem sucedida dupla da estória da decoração americana, apenas comparável à posterior parceria entre Sister Parish e Albert Hadley.
Billy Baldwin conta em seu próprio livro que sua primeira missão para Rudy foi rodar antiquários e depósitos de moveis selecionando e anotando o que gostasse: -“Depois de um mês ela saiu comigo e pediu que lhe mostrasse o que havia escolhido. Foi sua maneira de me conhecer”. Ainda segundo Baldwin, Ruby era franca, direta, nada afeita à bajulação e se entediava facilmente. Para ver o objeto gostava de toca-lo. Um pouco filosofa – afinal tinha de ter material para os artigos – acreditava que é possuindo o que gostamos mesmo é que somos felizes, não tendo o que os outros julgam desejável. Achava que todos precisamos do suporte do nosso ambiente. Autodidata, dizia que o papel do decorador era antecipar o gosto, correr na frente, e muitas vezes cria-lo para o cliente.
Quanto a modismos, afirmava que o que é hoje fantasia vai ser lugar comum amanha. Embora pronta para inovar, era critica do decorador excessivamente moderno, daquele que torna ainda mais despojado o espaço já despojado: -“ Tenho medo dessa obviedade. Não consigo acreditar que o que hoje pareça de uma simplicidade refrescante, em breve não se transforme em monótona estupidez. Alguns decoradores modernos colocam algumas peças de design numa sala sem cor e chamam a isso beleza.” Tinha também medo da robotização, de que faltasse alma ao ambiente. Gostava de explorar lojas de antiguidades, de buscar coisas usadas e dizia: -“O passado não é apenas de onde a gente vem, mas é o que somos, alimentado por qualquer coisa que a gente leia, ouça ou veja. Ele alimenta nossas vidas e portanto o nosso desenho. As mudanças vão vindo naturalmente. É o futuro – não o passado – o que ameaça o presente.”
Ruby Ross Wood gostava também muito de flores, mesmo no escritório, e de chintzs floridos em apartamentos e aconselhava que o tema da estampa escolhida fosse repetido nas gravuras e nos objetos nesse mesmo ambiente. Seu amor pela cor, o talento para usar flores e seu sentido de conforto permitiu que conseguisse dar algo de vivido ao “novo dinheiro” de seus clientes. Tinha senso de humor e não perdia a piada. Muitos a ouviram contar a historia do cliente novo rico que, ao receber a projetada cama Luis XV, lhe telefonou dizendo que a achara pequena e que iria preferir, portanto, uma Luis XVI”.
Mesmo que sem papas na língua, era capaz de criar regras a partir do sentido da delicadeza. Não concebia, em sua própria casa, que ao redor da mesa de jantar os anfitriões se sentassem em cadeiras com braço e os convidados nas sem braços. Que todas tivessem braço ou nenhuma. Segundo ela seria um insulto.




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