ETERNA BUSCA DO PERFEITO (02 de setembro de 2007)
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| Sala de jantar oval do apartamento de Eleanor em Nova York |
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| Salão de Eleanor, em Southampton, com tapeçaria de Raoul Dufy, ao fundo, cores vibrantes e muitos ambientes |
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| Em São Paulo, interior de bonde |
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| Eleanor sempre com pérolas e chapéu |
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| Fachada da townhouse na Rua 55, em Nova York, onde funciona a McMillen Inc |
Eleanor Brown, uma das mais emblemáticas decoradoras americanas do século 20, pautava sua vida pela elegância.
Nascida em 1890, em clima ainda de século XIX, a americana Eleanor Brown não queria ser vista como apenas mais uma entre as mulheres decoradoras surgidas na primeira metade do século XX nos Estados Unidos e na Europa. Tendo decretado que o estilo vitoriano era reacionário e pouco saudável, partiu, já casada e ainda jovem, para realizar a ambição de criar uma empresa com a finalidade de decorar em grande escala e onde todos os que ali trabalhassem fossem formados pela Parsons School of Design, onde ela mesmo estudou e onde mais tarde se tornaria presidente do seu conselho de administração.Para criar a McMillen Inc nos anos vinte, Eleanor teve o auxilio do pai, um rico industrial de Saint Louis, depois de também estudar finanças, condição por ele imposta, de um estagio na sucursal da Parsons em Paris e de um tempo trabalhando como assistente de Elsie Cobb Wilson em Nova Iorque, conhecida profissional da decoração naquele início de século.
O que pouca gente sabe é que foi no Brasil que essa figura baixinha, energética, sempre de chapéu, colar de pérolas e que morreu em 1991 com quase 101 anos, teve o seu primeiro filho, Louis, em 1916 e realizou o seu primeiro trabalho profissional, a decoração da Embaixada Americana no Rio de Janeiro no inicio dos anos vinte a pedido do então embaixador Edwin Morgan. Ao casar-se, em 1914, com Drury Mc Millen, um americano de origem escocesa interessado em projetos no Brasil como a publicidade dentro dos bondes, seu destino seria São Paulo, mais precisamente uma propriedade na Chácara Flora, que é hoje a bela residência do colecionador Kim Esteve e sua mulher Bárbara Leary.
Morar no Brasil, no entanto, não foi empecilho para suas ambições. O casal tratou de comprar um apartamento em Nova Iorque e entre esse estar cá e lá, Eleanor conseguiu cursar a Parsons School of Design, tão decisiva na definição de seus novos caminhos. Determinada, não jogava fora nem tempo nem conversa. Era comum ouvi-la dizer: “você precisa de tempo para viver. Viver exige tempo”. Em 1928, ao separar-se do marido, terminaram as viagens ao Brasil e nem um novo casamento em 1934 com Archibald Manning Brown a distrairia de manter a sua empresa atuante, na crista da onda, mencionada na mídia e considerada durante todo o século como uma das mais prestigiosas dos Estados Unidos. Nada era impossível.
Uma parceria com William Odom, diretor da sucursal da Parsons em Paris e de quem se tinha tornado amiga, lhe garantia receber, direto da França, os móveis da melhor qualidade possível para seus projetos. Entre aqueles no estilo dos Luizes, preferia o XVI pois as formas eram retas. Sua idéia sempre foi a de adicionar conforto ao clássico e ao muito rígido, apesar de que contenção, controle e formalidade eram traços de que nunca abriu mão. Embora usasse tapetes da melhor qualidade e móveis de diferentes períodos, almofadas feitas com tecidos antigos, terminações elaboradas em cortinas e muita porcelana, fazia questão de sofás, poltronas e cúpulas de abajur bem simples e despojados, retirando do ambiente qualquer ranço vitoriano ou eduardiano. Sempre respeitou regras e considerações históricas como as que, por exemplo, determinavam como sendo incorreto colocar um espelho na parede atrás de um sofá, ou usar listras com moveis barrocos, ao contrario de uma Sister Parish, uma Elsie de Wolfe ou uma Syrie Maugham que em nome da originalidade se permitiam maior liberdade e ousadia.
Poucas pessoas no entanto, tiveram tantos e tão relevantes clientes. A casa em Detroit, que a Mc Millen Inc decorou para o magnata Henry Ford é um marco na historia da decoração nos Estados Unidos nos anos cinquenta. O projeto meio neo-georgiano, é de autoria do famoso arquiteto John Russell Pope, autor também do Memorial Thomas Jefferson e da residência da Embaixada do Brasil em Washington. A qualidade, o refinamento e a riqueza das pinturas, da mão de obra e do mobiliário ali postos por Eleanor e seu time só eram comparáveis ao que fazia a famosa Maison Jansen em Paris. Nas paredes pinturas de Manet, Bonnard, Matisse e tantos outros grandes mestres. Acreditava que uma paleta contemporânea podia fazer rejuvenescer estampas tradicionais. A seu ver o homem só se sentiria bem num ambiente com referencias e raízes.
No tempo em que a Casa Branca esteve nas mãos de Lady Bird Johnson e de Betty Ford, a redecoração que se fez necessária ficou sob a responsabilidade da Mc Millen Inc. Também a Blair House em Washington, residência dos hóspedes oficiais, foi toda repaginada por Eleanor Brown.
Nos anos 80, quando ainda na ativa, um belo livro de autoria de Erica Brown e chamado “The Word of McMillen” veio celebrar os sessenta anos da empresa, mas foi sómente aos 88 anos que Eleanor decidiu se aposentar. Não era muito chegada a eventos sociais mas gostava de receber em casa pequenos grupos de oito a dez pessoas para jantar. No meio da mesa um pote de vidro com limões sicilianos. O amarelo era sua cor preferida. A seu ver, se nas paredes, traria o sol para dentro de casa. Nem bem tarde na vida abandonaria o cuidado com a aparência, as luvinhas, o chapéu e a atitude disciplinada.
Betty Sherril, há 50 anos na empresa e hoje a principal figura na Mac Millen Inc, foi testemunha da tenacidade, das exigências e do olhar visionário dessa figura tão ciosa de qualidade, que preferia anêmonas a qualquer outra flor e que ela nunca viu chorar nem rir alto demais. Apesar de contida, um dia declarou que tinha em Betty a filha que nunca teve.





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