ESTILO QUE VEM DA CHINA (09 de agosto de 2009)

Tenda siamesa construída
em 1778 e reconstruída em 1989

Pagode de 1765 do
príncipe Henrique da Prússia

Chinese Summerhouse,
construída em 1790, em Roma
Figura chinesa no topo de pagode do século 18 em Estrasburgo


Projeto de pagode para o
Trianon de Maria Antonieta
que não saiu do papel

    


Das folies da época de Maria Antonieta ao design atual, a chinoiserie sempre fascinou os europeus


Produção de Maria Regina Notolini
Imagens do livro 'Chinoiseries', de Brend H. Dams e Andrew Zega

Apesar de no mais das vezes frívolas e inúteis, são muito lindas, graciosas, encantadoras e extravagantes. As ermidas ou "folies" – pequenas loucuras – eram construídas nos pontos mais recônditos dos jardins de grandes casas e palácios europeus. Atendiam não só às mais variadas e anticonvencionais fantasias arquitetônicas da aristocracia e da realeza, como ao desejo de um lugar onde escapar da monotonia do dia a dia, onde fosse possível jantar a dois, conversar na intimidade, namorar secretamente, como Madame de Pompadour e Luís XV, ou brincar de casinha, fazendinha e outras coisinhas mais, entre flores e ovelhas, como gostava de fazer Maria Antonieta.
Embora na França a prática de construir esses pequenos pavilhões tenha começado no século 17, com os artesãos trazidos da Itália pelas rainhas Médicis, eles viveram o seu auge no tempo dos Luíses e se tornaram típicos do Antigo Regime, com detalhes de luxo e fantasia voltados para o puro prazer dos sentidos. A paixão de Luís XIV por essas folies incitaram uma verdadeira mania na Europa. De Potsdam, na Alemanha, a Moscou, os monarcas e aristocratas gastavam o que tinham e o que não tinham para imitar aquelas construídas em Versalhes, Marly e Bagatelle e criar seus jardins anglo-chineses – ou seja, adicionar algo de exótico à paisagem natural. Na França, no século 18, o duque de Choiseul e o barão de Saint James perderam a fortuna com folies em Chanteloup e Neully, respectivamente. E consta que a princesa de Ligne teria escrito ao superintendente das propriedades do marido implorando-lhe que o impedisse de gastar com essas frivolidades. Já os vultosos gastos de Maria Antonieta com construções extravagantes se somaram ao rol das acusações que a levaram à forca.
Depois da Revolução e acabada a brincadeira, muitos desses pavilhões, grutas, fontes e torres nos estilos mais variados e criatividade sem limites – um retrato do comportamento inconsequente dos personagens do Antigo Regime – foram desaparecendo e deixando poucos vestígios de suas mais ou menos breves existências. Pequenas histórias, no entanto, sobrevivem, como a de Catarina II, da Rússia, que, quando lembrada do absurdo que havia gasto em Tsarskoje com sua Chinese Village, respondeu: "Que assim seja. É um capricho meu".
Pecado ou não, o fato é que o encanto por essas folies – não esquecer que a palavra em francês significa loucura – nunca acabou. No início do século 20, o bon vivant Charles de Beistegui criou várias em seu famoso Château de Groussay, todas baseados em exemplos da história. Na Escócia, o Dunmore Pineapple, um pequeno pavilhão em forma de abacaxi construído em 1761, hoje pode ser alugado para curtas temporadas pelo National Trust da Escócia (44-131-243-9300). Outras, além de servirem como ponto focal em grandes jardins, são utilizadas como casas de piscina, jardim de inverno ou casinha de hóspedes.
Bom para os aficionados do que é belo e histórico, e para quem está interessado em construir a sua pequena folie. Há quem goste de fuçar no passado e, com talento e traço impecável, consiga reproduzir essas deliciosas edificações que se perderam no tempo, viraram ruína ou, no caso de poucas, sobrevivem como atração turística.
Pois foi o que fez a dupla de arquitetos, historiadores e artistas plásticos Bernd H. Dams e Andrew Zega. O trabalho deles, fruto de minuciosa pesquisa, não só nos informa com precisão sobre a arquitetura e o décor dessas extravagâncias, como encantam o olhar de quem visita a pequena exposição organizada por Thierry Meaudre em sua Librairie Lardanchet, na Rue du Faubourg Saint-Honoré, em Paris. Apaixonados por arquitetura e paisagismo e produzindo um trabalho que reconhecidamente vem contribuindo para o resgate da memória do patrimônio, não só francês como europeu e americano, Dams e Zega têm seus desenhos e muitos livros editados em tiragens limitadas pela Connaissance et Mémoires e, em tiragem maior e – portanto mais acessível –, pela Rizzolli, que lançou recentemente o belo Chinoiseries.
São 42 aquarelas em cores vivas que mostram pagodes pitorescos, pavilhões fantásticos e tendas luxuosas construídos nesse estilo chinês tão adorado e traduzido à maneira europeia. Alguns desses desenhos, que mostram lanternas, vidros pintados, candelabros, pontes, volutas, panos listrados com terminações em passamanaria e paredes pintadas com cenas chinesas são fruto de dez anos de pesquisas. Muitos são inspirados em projetos que nem chegaram a ser construídos, como o pagode encomendado por Maria Antonieta ao arquiteto Richard Mique em 1777, ou que foram edificados mas desapareceram depois, como o Carrossel, também uma solicitação da rainha a Mique, em 1776.
Embora o fascínio por tudo o que é chinês venha do tempo em que Marco Polo em 1295 empreendeu viagem à China e depois encantou a Europa medieval com seus relatos, o estilo chinoiserie tornou-se característico do século 18. Na França, o ápice da mania chinesa deu-se entre 1775 e 1785. Na Inglaterra, iniciou-se às vésperas do período vitoriano, nos curtos reinos de Jorge IV e Guilherme IV, quando foi criado e ampliado o famoso e extravagante Royal Pavillion em Brighton. Manteve-se vivo ao longo de todo o século 19, quando se tornou mais fácil viajar e buscar inspiração em países distantes e exóticos.
Como explica no livro o sinólogo Hugh Honour, a chinoiserie é um estilo europeu e não, como muitos podem pensar, uma tentativa incompetente de imitar as artes chinesas. Vale lembrar os papéis chinoiseries que forravam as paredes das salas das casas da aristocracia inglesa no campo e que se tornaram marca registrada do estilo inglês de decorar. Hoje são produzidos em Londres pela De Gournay.
O fascínio pela China, que até hoje não parece ter arrefecido, promete seguir vivo no século 21 . Um dos best sellers da Lee Jofa hoje é o tecido Toile Rousseau, baseado no original de 1780, com cenas de jardim onde abundam as folies. E infinitas são as criações de design contemporâneo que buscam inspiração no que é chinês. Um exemplo é a Porca China, um lustre branco cheio de cabecinhas de chineses, obra e graça do designer de luz Ingo Maurer, dentro da linha Porca Miséria!, da Krizia. Outro é a maravilhosa poltrona Eva da Onlymited, inspirada na moda e no estilo de vestir chinês e que mais parece um quimono de braços abertos a nos oferecer o colo.
No prefácio de Chinoiseries, Hubert de Givenchy, além de agradecer a Dams e Zega por dar vida nova a uma era onde a imaginação, o luxo e a beleza tinham muito a acrescentar, deixa registrado que "esses preciosos documentos retratam uma época onde o gosto, a extravagância e o sentido de fantasia eram essenciais à maneira com que parques e jardins eram adornados, inscritos na natureza e habitados por sonhos".  

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