DECLÍNIO COMO SINAL DE ESTILO (10 de fevereiro de 2008)

Ambiente do Trois Garçons:
a cabeceira da cama lembra um sol.
A colcha de pele e o roxo das paredes
contribuem para o clima de decadência





Coluna de bronze que
lembra um blackamour veneziano
Inspirada nas mesas das grandes
festas do passado, a criadora
Amelia Dillman colocou sobre toalha
de papel dourado objeto de sua autoria

Lembrando os interiores rococós do
século 19, a decoradora Agnès Emery
criou esta estranha sala de espelhos
de variadas procedências na
casa de um cliente em Bruxelas
Detalhe da mesa na suntuosa
sala de jantar da casa de Franca
e Carla Sozzani, em Marrakesh,
com paredes, teto e piso decorados

Entre os objetos de marfim, a ceveirinha
macabra bem ao estilo decadência, morte e gula

          

Em alta a partir do século 18, os decadentes servem de influência até hoje ao ideário do prazer e da estética.

O conceito de decadência, que costumamos reservar aos povos e nações em declínio pode, como aliás acontece ao longo das idas e vindas da história, estar associado ao refinamento, à sofisticação e ser uma senha para um mundo muito especial de luxo, indolência e romantismo.
Ancorada em nossa psique, dada a baixas e euforias, o sentimento de decadência pode surgir de diversas maneiras ao longo das diversas civilizações que, de modo cíclico, sucumbem ao pessimismo e à nostalgia de seus tempos idílicos, idades de ouro e períodos de grandeza e heroísmo. Tudo o que for “neo” haverá de ter raízes na decadência, ou seja, num passado que acabou.
Nos últimos dias do esplendor romano temia-se o “inclinatio”, ou seja, em bom português, o declínio. A sensação geral das pessoas era que a pureza de espírito, a força e a nobreza dos antepassados lhes fugia. A vida devassa dos imperadores era evidente sinal de declínio e os artistas e artesãos já não faziam o que haviam conseguido criar os seus antecessores. Consta que Cícero teria pago o equivalente então a 15 mil euros por uma mesa mandada fazer com uma raríssima madeira africana. O luxo e a extravagância dos romanos se manifestava também e muito especialmente no mobiliário, nas mesas com tampos de lápislazuli e pés de ouro e na suntuosa decoração das paredes dos palácios. Os verdadeiros colecionadores passaram a se voltar para a arte de tempos mais antigos e temiam a influencia das civilizações estrangeiras como a oriental e a africana mais do que a realidade que lhes batia à porta, a iminente chegada dos Bárbaros.
Não demorou a que teólogos do catolicismo associassem a decadência aos sete pecados capitais e que seus pregadores passassem a perseguir os supostos pecadores, que, embora menos virtuosos, podiam ser, para os apreciadores da boa vida, pessoas mais carismáticas e interessantes. Não se pode deixar de reconhecer que, ao longo dos séculos, na maioria das vezes, os “decors” maravilhosamente refinados e os palácios supremamente luxuosos foram obra e criação de grandes homens bem pouco exemplares.
Não houve época sem heróis extravagantes e dissolutos, mas foi no século dezoito que eles passariam a ter sua imagem questionável associada claramente ao prazer e à estética. A gratificação dos desejos passou a ser vista como meta honrada. Dizia Voltaire em 1716 “que o prazer deve ser a finalidade e o dever de todos os seres razoáveis”. Condenava-se a hipocrisia mas, como em todas as épocas, vícios e virtudes seguiriam coabitando. O Marques de Sade, o grande malvado da idade da razão, acrescentava que “não há maior felicidade do que quando a depravação física e moral é a mais universal possível”.
A decadência foi também o tema predileto de Verlaine, o famoso poeta francês que no final do século XIX, em suas poesias evocava o paraíso na terra, fazia apelo à luxuria, à crueldade e a outros pecados mais terríveis e parecia se orgulhar da imagem que emanava. Com seus colegas, formou um grupo seleto que encarnava e propunha uma visão de vanguarda da decadência. O novo decadente tinha de ser um homem moderno, chique, sofisticado e atraído pelo supérfluo. Nada poderia ficar ao acaso. Boêmios ou mundanos, poetas, pintores, homens de letras, estetas ou vagabundos, se consideravam eles mesmos a obra de arte, criaturas espirituais, inteligentes e de sensibilidade exacerbada, enfim pessoas especiais, desdenhosas do resto espécie humana e do então presente que consideravam vulgar.
Foi uma época em que de fato a escolha arquitetônica, não importa se antiga ou moderna, gótica ou clássica, era uma questão altamente poética e em que se escolhia a decoração de um cômodo em função de critérios morais ou religiosos. A arte e a literatura fariam eco. A tendência desses então novos artistas e estetas em cultivar o gosto duvidoso e a se auto proclamarem “decadentes” fazia muita gente, mesmo então, e graças a Deus, estremecer. Essa decadência dita moderna, como cantava o poeta Gerard de Nerval, misturava hesitação, atividade, ócio, utopias maravilhosas e fazia com que pessoas possuídas de entusiasmos vagos e destituídas de qualquer ambição política ou comunitária, se encastelassem em torres de marfim com suas próprias filosofias e religiosidades.
Para Oscar Wilde que sempre defendeu o fechado clube dos hedonistas de rosas murchas na lapela e que recomendava a quem se interessasse o livro de Joris Karl Huysman, “A Rebours”, de 1884, até hoje considerado a bíblia dos decadentes, o pecado é o que nos tiraria do lugar comum, seria um elemento essencial ao progresso e fundamental para o não envelhecimento do mundo.
Consta do livro de Huysman o jantar “negro” oferecido pelo Duque Jean Floressas des Esseintes quando sofreu perda temporária de virilidade. Os pratos tinham as bordas pretas, a sopa era de tartaruga, o pão de centeio russo e as azeitonas pretas da Turquia. Havia caviar do mar Cáspio, retintos budins defumados de Frankfurt, carne de caça com molho de alcaçuz e passas, coulis de trufas negras, cremes de chocolate fondant, vinhos bem tintos da Limagne, do Roussillon, do Tenedo, do Val de Peãs e do Porto servidos em copos de cristal fume bem escuro. Depois, café acompanhado de pretas broas de nozes e guloseimas de açúcar queimado. Fica aqui evidenciado o que não deixa de ser reconhecível em festas e jantares que freqüentamos hoje, ou seja, uma preocupação com o estilo, o diferenciado e o décor que acaba deixando em segundo plano a substancia. Esse tão simbólico e fantástico “negro” jantar ilustra sobretudo um delicioso paradoxo da decadência que transparece na suntuosidade desse menu e dessa decoração temperados pelo aspecto macabro da razão da festa e que associa a idéia da gula à da morte como aliás acontece no contemporâneo “La Grande Bouffe”, filme de há alguns anos atrás.
Pecados e pecadores a parte, fato é que há, sem duvida, muito de romântico, de enfadonho e também muito de sedutor nessa recorrente estória da decadência que é ao mesmo tempo a história do homem e de seu gosto pelo luxo, pela riqueza e pelo que cada um entende por beleza. Não é sem razão, portanto, que tantos decoradores recentes como Lês Trois Garçons ( Hassam Abdulah, Michel Lasserre e Stefan Karlson), Garrouste et Bonetti, Gaetano Pesce, Tony Duquette, Dennis Severs, Agnes Emery e tantos outros estiveram ou estão ai para atender aos desejos dos muitos milionários americanos, russos, árabes, dos colecionadores de arte bilionários e dos marajás da nossa atualidade. 

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