CORES QUE TRADUZEM O BRASIL (27 de maio de 2007)

Lápis coloridos
Lápis coloridos e desenho da mesa de trabalho
de Ruy Ohtake, o arquiteto dispensa o
computador ´Faço uma ligação direta
entre a cabeça e a página em branco´

O arquiteto ao pé da escada que dá a impressão
de estar solta no espaço e em meio às cores
Um dos cantos aconchegantes do
apartamento de Ruy é o de sua mesa
de trabalho, cheia de papéis e livros

Um dos cantos aconchegantes do
apartamento de Ruy é o de sua mesa
de trabalho, cheia de papéis e livros

O arquiteto visto por entre a escultura de
Tomie Ohtake e junto à bancada em que uma
composiçãorevela seu estudo sobre o quadrado

          



Autor de projetos arrojados, Ruy Ohtake volta `a Casa Cor, abre seu apartamento, em São Paulo, e discute Arquitetura.

A cor é com ele mesmo. Dela decididamente não tem medo. Daí que, sem restrições, o arquiteto Rui Ohtake, autor de uma piscina vermelha, de fachadas com ondulações azuis ou rosa espelhado e do projeto que multicoloriu as casas da favela de Heliópolis, aterrissa nesta próxima Casa Cor assinando um loft para a Florence, fabricante de moveis do Rio Grande do Sul. Ali o vinho, o branco e o prata semi brilhante são as cores que vão predominar, além da forma curva e sensual, tão características de seu traçado arquitetônico.
Rui não vê qualquer incompatibilidade entre arquitetura e decoração: -“Uma boa arquitetura já estará criando a ambientação que depois deverá ser apenas complementada. Em seu espaço na Casa Cor, vai ter dormitório, estar, escritório, adega, estante, bar e cozinha com fogão, sim um fogão, ao contrario da cozinha na cobertura onde mora.
Pois foi nesse apartamento onde Rui não almoça nem janta e onde também até hoje não entrou computador, que fui encontrar o arquiteto para a entrevista. Segundo ele, provocar surpresa é um fator importante na arquitetura e sua razão de ser estética. Não sem motivo portanto, adentrei surpresa o hall de entrada do prédio de flats de sua autoria e que se chama Address e onde o azul colore as formas onduladas que se iniciam no portão da rua por onde entram os automóveis e se repetem no concreto da fachada, fazendo com que através do vidro dos janelões se veja uma São Paulo mais sinuosa e menos dura. Do décimo sétimo andar onde o apartamento do arquiteto ocupa a área de dois flats de dois andares a vista impressiona. Pode-se avistar o Morumbi, a Vila Olímpia, os Jardins e a Faria Lima, sob um olhar atenuado pelas ondulações da arquitetura. Repetir e insistir em uma mesma forma que vai aparecer e reaparecer em diversos detalhes num mesmo projeto é sua maneira de reiterar a forma inicial, de imprimir uma imagem.
Rui Ohtake explica a falta de sotaque por ter crescido fora da colônia japonesa. Acha que para ele e o irmão Ricardo foi importante esta independência. Ser filho da famosa pintora Tomie Ohtake nunca atrapalhou, muito ao contrario. Domingo é dia de almoçar com mãe que aos 93 anos ainda mostra segundo ele uma invejável vitalidade: - “Ela sempre nos deu força. Agora é hora da gente devolver.” Estudou no Colégio Presidente Roosevelt, fez arquitetura na FAU e é sãopaulino roxo. Esporte faz só com os olhos, assistindo futebol, apenas o que vê na televisão. O pai que era comerciante morreu há trinta e dois anos e os filhos, Rodrigo e Elisa, são cada um das duas mulheres com as quais já foi casado.
Segundo ele próprio sua arquitetura tem algo de barroco contemporâneo e não é senão um reflexo do Brasil, de suas formas extravagantes e sensuais e das cores vivas e originais de cidades como Paraty, Ouro Preto e Salvador: - “Hoje elas perderam a cor, ganharam um cinzinha, um begesinho. Quero resgatar a cor do Brasil. Gosto do azul forte, do vermelho vivo, do amarelo gema, do vinho”.
A brasilidade só é levemente traída quando pergunto sobre comida japonesa. Seus olhos brilham e saio com dicas de três ótimos lugares para comer, inclusive um segredo bem guardado, o Kidô, no bairro da Liberdade. Justiça seja feita, também fico sabendo onde ir para o melhor bife, o melhor peixe e a melhor massa de São Paulo, cidade que ele não trocaria por nenhuma outra no mundo. Se lhe falta companhia, janta no balcão dos restaurantes vizinhos e fica conversando com o maitre ou o barman. Conta que a ambientação do D.O.M. é também de sua autoria. E se quer receber amigos em casa pede a Neka Mena Barreto ou a Toninho Mariucci que lhe tragam tudo, desde pratos e talheres. No bar tem uma interessante coleção de garrafas de vodka e também copos de diversos formatos que ganharam apelidos como “torre de Pisa e “ grávida”. Diz já ter sido tarado por vodka mas que hoje bebe muito moderadamente. Quando recebe, muitas vezes o piano preto que o acompanha desde quando tocava na infância pode ser usado e afinado por algum amigo bem dotado como Guilherme Arantes. Os amigos também poderão sentar-se nos sofás ou poltronas em formas triangulares ou sinuosas por ele desenhados, em geral com a estrutura em metal colorido. Chama a atenção para uma namoradeira em metal verde, roxo e amarelo, uma versão contemporânea ou como ele mesmo diz, “uma releitura daquelas antigas mineiras”. Uma das mesas de frente é uma chapa de metal redonda que recortada e dobrada se tornou quadrada e ganhou três pés. Outra é uma bacia de acrílico com três divisões contendo cada uma feijão, soja e milho.
Educado e gentil, oferece cafezinho e biscoitos depois de ouvir a campainha e abrir a porta para uma copeira empunhando a bandeja: -“ Veja, é por isso que não preciso de cozinha. Quando quero alguma coisa é só pedir”.
E segue mostrando a casa e outros moveis que vem inventando há quinze anos e que podem ser de aço, madeira, vidro ou concreto, assim como a variada coleção de quadros, esculturas e desenhos de artistas amigos. Numa passagem que chama de alameda interna, um longo móvel baixo e ondulado de 14 metros e amarelo gema começa como estante, se transforma em abrigo para o aparelho de som, vira porta cabides e termina como mesa de lanchar, tudo em MDF, um material que não foi feito para ser vergado mas que ele fez ganhar curvas até mesmo para surpresa dos fabricantes italianos: – “No Brasil a criatividade pode substituir a tecnologia. Em 99 levei para o Salão do Móvel em Milão seis peças curvas em MDF e provei que isso era possível. Quando falo no móvel dividindo o espaço, o arquiteto me corrige. Prefere que eu diga integrando. No final desta alameda e suspensa por fios de nylon uma grande escultura da mãe artista, também em amarelo.
Uma obra em metal pintado de vermelho de Franz Weissman é outro volume que se impõe. Mostra um trabalho de Carmela Gross composto de peças de barro presas por fios, feito especialmente para ocupar toda uma parede do apartamento. Tem ainda Piza, Volpi, Zé Rezende, Bruno Giorgi, Tunga, Amílcar de Castro, Kimi Li, Waltercio Caldas, Baravelli, Niki de Saint Phale, Emanuel Araújo, Jesus Rafael Soto e ainda muitos cujos nomes não consegue lembrar : - “Vou ficar te devendo”.
Assinado pela mãe tem também um tapete de uma série de dez feito há alguns anos em preto, branco e detalhes em vermelho. E sobre uma bancada de concreto está posto o que chama de um estudo sobre o quadrado, uma seqüência de bandejas ou cinzeiros onde as formas quadradas vão virando redondas.
Conta que para a casa que fez para um casal de médicos idealizou uma mesa de onze metros, em madeira, que começa como de frente de sofá, atravessa o espaço de forma sinuosa e com aberturas e perfurações utilitárias como para guardar o jornal, vai propondo soluções ao longo do seu caminho.
Sobre a mesa de trabalho num canto mais aconchegante e rodeado por estantes com livros, vejo muito papel, esboços de desenho e muitos lápis: - “Não tenho computador. Na hora de criar faço uma ligação direta entre a cabeça e a pagina em branco, sem maquina no meio. Acho que a transmissão fica mais calorosa, mais espontânea.” Dá como exemplo desse processo o escritor que a cada baforada no cigarro, faz aquela pausa de alguns segundos para o pensamento: -“ Sempre desenho com espaço, com horizonte a minha frente, ouvindo música que pode ser MPB, clássica ou jazz, e sempre parando para olhar a vista. A intuição é fundamental e tem de ser alimentada pela musica e pela paisagem”
Rui Ohtake reconhece não ser em nada um minimalista. Não parece ter medo de a cada passo aportar detalhes originais e elementos de efeito e de repetição. Certamente não é seu o lema “less is more”. Acha que as varias correntes que ai estão enriquecem a expressão da arte e da arquitetura. A cada forma reta opõe uma curva. Acha que é importante uma boa dose de ousadia na busca do contemporâneo: “A arquitetura tem de contar a história de uma cidade, tem de ser expressiva. Isso acontece desde o renascimento. Em arquitetura o gesto tem de ser generoso, não excessivamente utilitário. Tem de responder ao necessário mas tem de oferecer mais. Nenhuma regra deve ser rígida, definitiva. A emoção tem esse poder de alterar a razão, de alterar a regra. Isso está por traz de muita coisa na vida.”
Rui Ohtake não fala mal de ninguém. Admira os arquitetos Tadao Ando, Tange, “aquele que fez os jogos olímpicos em Tóquio” e Toyo Ito, autor de uma mediateca sensacional em Nagóia. Só considera mesmo arquitetura a obra construída, aquela que já saiu do papel. Influencias? Com Oscar Niemeyer, em quem ressalta o lado poético e considera o maior arquiteto vivo do mundo diz ter aprendido muito. Em João Villanova Artigas admira o rigor e sobre Paulo Mendes da Rocha diz ser muito bom.
Entre os seus mais de cem projetos gosta de lembrar a chancelaria e a residência da Embaixada do Brasil no Japão. Fora do pais fez também um hotel no Caribe e outro em Barcelona. Seu Hotel Unique em São Paulo é dos que mais chamam a atenção. Já houve quem dissesse que se parece a um grande navio ou a uma apetitosa melancia. Há também quem aprecie os espaços internos do Instituto Tomie Ohtake mas desgoste da sua fachada. Opiniões a parte, não se contesta o fato de que esta obra trouxe contemporaneidade ao bairro de Pinheiros, juntando negócios e cultura num mesmo espaço que abriga escritórios, centro de reuniões, teatro e galerias. Sobre o Edifício Conde de Sarzedas, anexo ao velho Castelinho e que hoje abriga parte do Tribunal de Justiça do estado, diz que recebe bilhetes dos juizes que, apesar da formação acadêmica estão contentes e apreciando trabalhar num ambiente para eles tão inusitado. Obvio que também é dele a casa da mãe Tomie, já tão fotografada e conhecida.
Rui Ohtake gosta também de falar de Heliopolis, a segunda maior favela da América Latina, com cem mil habitantes, onde desenvolveu com a Suvinil e o Banco Panamericano um projeto para colorir a fachada das casas. Ali vai ao menos uma vez por mês. Já houve quem dissesse que ele apenas coloriu a miséria. Não acha justo o comentário. –“Sei que a pintura apenas não resolve a questão social mas contribui. Serviu para melhorar a auto estima das pessoas e hoje existe ali um centro cultural com exposições de gente de dentro e de fora, um pequeno cinema com uma filmografia interessante para a comunidade e uma biblioteca comunitária operada pelos próprios moradores”.
Cinema é um assunto de que gosta. Numa estante vazada e de concreto que parece voar além de integrar ou dividir, há livros sobre Kurosawa, Felini, Truffaut, Chaplin. Tem também Noel Rosa, Oscar Wilde, Descartes. Deduz-se que gosta de ler.
Seus projetos são bem detalhados e por isso, segundo ele, a construção não demora a ficar pronta: - “Apesar da formação brasileira alguns dizem que sou organizado como os japoneses”. Ri quando pergunto se respeita as regras básicas da construção niponica que impede que uma casa tire o sol da outra ou faça cair água no vizinho. Não se considera um arquiteto caro:- “Até agora ninguém reclamou”. Rui viaja bastante. Dai a dias partiria para a Espanha para duas conferencias. Estaria, no entanto, de volta a tempo para a abertura da Casa Cor, evento que considera interessante “pois nos coloca diante do desafio e da inovação."

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