COM ELE, O BRASIL GANHOU MAIS LUZ (04 de outubro de 2009)



Furio (à esq) na época da chegada
ao Brasil, quando expôs e vendeu
com sucesso a mercadoria trazida da Itália
A inauguração da Dominici
carioca em 1955, em Copacabana


Fachada da loja na
Rua Xavier de Toledo, em São Paulo

Furio Dominici, aos 98 anos, e Baba Vacaro







O italiano Furio Dominici chegou em 1946 trazendo o melhor do design em luminárias. E fez história

Produção de Maria Regina Notolini
Fotos de reprodução

No Barão de Jaceguí, o navio em que estavam Lina Bo Bardi e Pietro Maria Bardi recém casados e que ancorou no Rio de Janeiro em 1946, chegou ao Brasil Enrico Fúrio Dominici com mulher, dois filhos e 35 caixas de cristais.
Vinha de Bologna, cidade arrasada pela guerra, onde fundara sua primeira Dominici no início dos anos 30. Com fachada de vidro quase minimalista, letreiro de letras retas e vendendo objetos modernos para a decoração, a Dominici já oferecia do bom e do melhor em matéria de design como a luminária “Bilia” de Gio Ponti, fundador em 1927 da revista Domus, da Fontana Arte e da Trienale de Milão. Vendia também vidros de Murano, Venini e Seguso, além das criações de amigos como Pietro Chiesa, Achille Castiglioni e Gino Sarfatti, figuras sacrossantas do design modernista italiano do início do século.
No Rio de Janeiro olhou ao seu redor, farejou e identificou o gosto pelo modernismo. Tenreiro já existia e agradava. E arquitetos como Lucio Costa, Carlos Leão, Jorge Moreira, Affonso Eduardo Reidy e Oscar Niemayer já eram atuantes. Haveria sim espaço para seus produtos. Não hesitou. Ainda em 1946, em exposição no Copacabana Palace, conseguiu vender e mostrar produtos italianos a revendedores e arquitetos.
Não foi o Rio de Janeiro, no entanto, a cidade escolhida por Fúrio para sua primeira loja no Brasil. Ou porque em São Paulo houvesse um maior número de imigrantes italianos e assim se sentiria mais em casa, ou porque viu a cidade em franco crescimento com imóveis sendo erguidos por toda a parte, o fato é que a Dominici Iluminação Moderna se instalou muito fagueira na capital paulista, com lustres de cristal de Murano em suas vitrines, bem ao lado do Mappin, na rua Xavier de Toledo.
No Rio de Janeiro a primeira loja data de 1955. Desde o começo do século muitos dos quarenta teatros construídos entre 1850 e 90 no centro da cidade vinham sendo restaurados e transformados em salas de cinema, daí a existência da velha conhecida Cinelândia. Os produtos Dominici chegaram na hora certa. Ficaram famosos os lustres de cristal como aquele com rosetas sobre aros de duas alturas que inspirou a designer Baba Vacaro na criação do seu lustre “Bouquet”, peça da coleção New Classics para a Dominici no ano 2000.
Uma segunda Dominici já existia em São Paulo na Rua 13 de maio desde 1950. Foi quando Furio criou o Studio Dominici, oferecendo aos brasileiros a oportunidade de se familiarizar com o design assinado europeu através de aulas e do contato com as próprias peças importadas. Com a ajuda de um sócio, montou a fabrica em 1960 e passou a produzir aqui mesmo luminárias e artefatos de iluminação assinados por arquitetos modernistas brasileiros, sempre focando em tendências, mas sem deixar de lado os modernistas que se tornavam clássicos. Faziam também enorme sucesso as maçanetas e os puxadores em cristal de Murano colorido que, junto os produtos de iluminação Dominici eram encomendados para hotéis, navios, bancos e residências modernistas.
Depois de 62 anos de existência, de uma fábrica que cresceu, produziu a todo o vapor e depois foi vendida; de mais lojas no Rio de Janeiro e outras três em São Paulo nos anos 1970; da aposentadoria de Furio que passou a empresa para as mãos do filho Giordano, o qual, por sua vez, teve dutrante dez anos como sócio Salvatore Ambrosino; dos muitos altos e baixos do período nada produtivo da ditadura militar até os anos Collor, e da venda da empresa para o empresário francês Marc Van Riez em 1997, a Dominici retomou o prumo. Reergueu-se a partir de um trabalho de retorno às suas origens, ou seja mantendo-se antenada, apontando para o futuro, mas sem deixar de lado a tradição de oferecer o melhor do histórico design modernista.
Hoje, visitar a Dominici na Rua Gabriel Monteiro da Silva é como passear num museu de design. Os produtos ali expostos e selecionados por sua diretora de criação, a designer Baba Vacaro, não só contam a história desta loja e de sua marca, como nos falam sobre a trajetória da iluminação moderna e contemporânea desde os inícios do século XX. A luminária Bilia de Gio Ponti, um design dos anos 30 e que Fúrio Dominici já vendia na loja de Bolonha, ali está, mais atual do que nunca. De Achile Castiglioni, entre outros modelos mais recentes, as conhecidas Arco e Toio, lançadas em 62, seguem jovens e poderosas. A Falkland de Bruno Munari, um best-seller de 67 que junta a elasticidade do tecido com a tensão de aros de diversos tamanhos está de volta à moda. E a Ariette de Tobia Scarpa de 1973, leve e etérea, produzida pela Floss, é outra luminária que parece estar ai para sempre. Entre essas e outras, muitas criações de Phillip Stark, Antonio Citterio, Jasper Morrison,Vico Magistretti, Konstantin Grcic e Marcel Wandres. É deste último a sensacional Skygarden, inspirada no teto de gesso cheio de floresinhas da casa de sua avó, e as muitas luminárias criadas pela própria designer Baba Vacaro, entre elas as Juliettes e as Babettes da série Dress to Impress lançada este ano, com cúpulas em tecido cru que falam da geometria dos godês, plissês e balonês.
Baba, na Dominici desde 1999, quando contratada pelo atual proprietário para ser a diretora de criação, partiu sempre do princípio que, para reavivar a marca, era preciso, aproximar a empresa de sua história. Tornou-se amiga do peito do centenário Fúrio Dominici, que completou seu bem vivido século em fevereiro passado e mora hoje em Florianópolis. Apesar de saudoso de tempos que não voltam mais, tem orgulho de ver a Dominici em plena forma e ostentando o nome de sua família na logomarca, criada em 1970 pelo argentino Antonio Lizárraga, artista plástico que foi ilustrador no jornal O Estado de São de Paulo de 57 a 67. Com Baba, a quem Fúrio diz só dever gratidão pelo entusiasmo com que ela se dedica à preservação da marca a que dedicou sua vida, troca gentis cartinhas e bilhetes. Às vésperas da festa comemorativa dos 60 anos da Dominici no Brasil, em 2007, falando da emoção com o convite que “ me fez encher os olhos de lágrimas” e justificando seu não comparecimento, escreveu-lhe na língua materna: “non mi giudichi un romantico ma solo un nostálgico...saro presente col cuore”. E para Marc Van Riez, depois dessa festa onde bem montados painéis históricos contavam a história da empresa através de fotografias e de ilustrações dos belos anúncios modernistas do passado, Fúrio confessou em carta :-“foi triste para mim perder tão agradável ocasião quanto por perder os contatos com o mundo que me ofereceu os melhores dias da minha vida. Vivo com uma saudade que tormenta”.
Se remontarmos aos anos 50, 60 e 70 é possível imaginar como deveria surpreender a existência de lojas com um discurso tão modernista e ao mesmo tempo pop em locais como Rio de Janeiro, Belo Horizonte, no centro e em alguns shoppings em São Paulo. Embora nunca tenha desenhado nem pretendido faze-lo, Fúrio Dominici tinha olho, faro e sensibilidade. Vendia o que sabia ser bom, e o fazia com convicção. A marca que criou, hoje lhe faz jus. 

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