COM CHARME E DRY MARTINI (22 de julho de 2007)

Vitral no teto da sala de estar
do apartamento, em Higienópolis
Cadeiras com tramas de
palha, criadas por Sylvia

Cômoda ripada com forma reta e
minimalista; cama de dossel versão moderna
Cadeira de metal dourado
dos anos 60, no canto da foto

Quadrados com madeira e espelho
cobrem o teto da sala de TV

Sylvia e seu amigo e designer José Duarte de Aguiar




Sylvia Kovarick
Quadrados com madeira e
espelho cobrem o teto da sala de TV

O palacete do avô Frederico Kovarick,
erguido em 1911, no bairro da Aclimação

          

Aos 84 anos, Sylvia Kovarick recorda como era viver com elegância na época em que criou a Plano’s Decorações.

Sylvia Kovarick queria ser moderna e conseguiu. Com elegância, charme e ousadia. Apaixonada pelo hipismo, entre ganhar do avô um automóvel ou um cavalo, preferiu o segundo. Quando casada, atrás de saber por onde andava o marido sumido na noite paulistana, não hesitou em vestir-se de homem e sair por ai. E já divorciada, quando para ganhar a vida optou pela decoração, optou pelo novo e o moderno para dar o tom na loja que abriu com uma amiga na Oscar Freire, a Plano Decorações, que pouco depois seria vizinha de porta do famoso Plano’s Bar, por elas mesmas aberto, quando perceberam que receber os amigos na loja para um drinque e bate papo no fim da tarde já se tornara rotina.
Hoje, com 84 anos confessos, pode nos falar de um tempo ainda bem anterior e quando nas casas se plantavam pés de camélia pois se as usava nas lapelas. Fala de seu tempo de criança quando subia com os primos no telhado para ver o avô chegando da Europa no Hinderburg, um dirigível que em 1936 fazia a viagem em três dias e onde era servido champanhe e caviar. Mostra fotos do antepassado austríaco, Frederico, casado com uma alemã de nome Hermine, sua avó. Foi ele quem fundou em 1898, em Santo André, a primeira fabrica de casimiras da América Latina. Sylvia descreve o palacete por ele mandado construir em 1910 em São Paulo, no bairro da Aclimação, mais exatamente na Rua Castro Alves, com quatorze metros quadrados, vinte e quatro quartos, quatorze empregados, simetria inglesa, rigor germânico e verde tropical. Ali, onde hoje pairam oito prédios de apartamentos, a família unida tocava musica e se reunia em black-tie, alem de passear pelos jardins com direito a um grande lago, fontes e impecáveis topiárias. Na enorme garagem, um Packard e um Lincoln conversíveis, mais o Horsch, o Tatra e o Meibach, mantidos por motoristas com polainas e plastrons. Pois foi nesta casa que Sylvia aprendeu e se habituou ao que fosse belo e refinado. Ter convivido com os moveis antigos ou de vime no jardim de inverno, estofados em cetim de seda, cúpulas plissadas e debruadas, quadros pendurados à parede por cordas de passamanaria, tapetes aubussons, lareiras de mármore, lambris nas paredes e a farta biblioteca, mais tarde doada para o Mosteiro de São Bento, ensinou-lhe o valor da qualidade, mas não impediu que ousasse no sentido de uma linguagem estética moderna.
Mesmo depois de fechada a loja, pois o imóvel foi posto a venda e o bar adquirido por Fernando Milan, Sylvia continuou a trabalhar e participou de várias Casas Cor inclusive a primeira, em 1987 onde fez um terraço grande e branco, com moveis de vime também brancos e cor apenas em almofadas cá e lá. Hoje, ela pode também falar do que era ser moderno em decoração nos anos sessenta, mas basta que nos mostre o apartamento em Higienópolis onde mora desde 1964 e que apesar de decorado em tempos idos de loja, é testemunha de que o que então criava, não só resiste em ficar velho como ainda pode nos servir de inspiração.
No teto da sala de jantar um vitral em estilo decô e com luz embutida foi presente de um amigo e é de dar água na boca em muita gente. A porta que divide esse ambiente da sala de visitas tem cor laranja e pinturas no vidro permitindo a passagem da luz. A estante criada na reentrância de uma das paredes amarelas e que puxam para o ocre tem fundo azul com nuvens e nas prateleiras de vidro a coleção de bolas de pedras e tamanhos vários, uma mania de sempre. Os sofás tem a cor azul do fundo da estante e no corredor, pintado por Pedro Leitão na porta que leva ao interior do apartamento, um retrato de Sylvia em tamanho natural. Na salinha ao lado, de TV e com sofá curvo, o teto é quadriculado em madeira e os vãos forrados de espelho.
Para a loja da Oscar Freire, Sylvia desenhava e mandava executar mesas de frente de sofá ou de jantar em formas geométricas, de encaixar, em madeira e metal ou forradas com pergaminho. Vendia sofás de mola em espiral forrados com patch work que mandava fazer com tecidos diversos em tons de uma mesma gama. Fazia cortinas que, já destituídas do drapejado antiquado, tinham três forros como as antigas européias. – “D.Sylvia era uma pessoa elegante e trazia isso para o trabalho”, diz Maria Batista de Souza que aos 16 anos começou a trabalhar ao lado da mãe que por sua vez já trabalhava para a decoradora: -“ Hoje não há mais clientes para esse tipo de trabalho, com essa qualidade. Tudo era impecável, diferenciado.”
Não é que Sylvia soubesse manejar uma régua de calculo, mas tinha idéias, ousadia, um arquiteto e dois desenhistas. –“ Eu viajava muito, trazia alguns moveis da Itália para se ter uma melhor idéia de como eram feitos e lia muita revista”. É a empregada Maria de Lourdes Meireles, uma portuguesa de 74 anos de idade e 39 de casa, quem vai buscar os velhos álbuns de capa marrom com Plano Decorações em letras brancas e geométricas. Neles fotos de sofás com almofadas de assento e encosto com desenhos obtidos apenas por nervuras no tecido, de mesas saindo umas por de baixo de outras ou com tampos de vidro, de cadeiras chinesas pintadas em laca vermelha, de paredes forradas de palhinha, de colunas de espelho em forma de pirâmide, de uma cadeira com a estrutura em madeira imitando corda, de outra com assento de palha rústico em contraste com o encosto em palhinha tradicional, de cômodas feitas com ripinhas de madeira clara, de bares, banquetas e escrivaninhas com puxadores como aqueles dos moveis ingleses de barco.
Maria de Lourdes faz questão de contar que a patroa já foi capa de O Cruzeiro e que em tempos passados fez parte de listas das “dez mais elegantes”. E num telefonema para João Manuel de Souza, hoje no Tambouille, e que foi copeiro do Plano’s desde os seus primórdios até o último dia, fico sabendo que o dry-martini era o drinque campeão, que o Bloody-Mary era “in”, que o champanhe não rolava como agora, e que o picadinho da casa vinha acompanhado de farofa, arroz e rodelinhas de banana. Duas mulheres serem donas de bar era, então, coisa jamais vista. Um piano, um contrabaixo e muita simpatia faziam o ambiente. João Manuel conta com saudades que a casa vivia lotada e que “quando D.Silvia entrava todo o mundo levantava.” Fora os amigos de sempre como Germano Mariucci, Terry de la Stuffa, José Duarte de Aguiar, Aparício Basílio da Silva, Fernando Milan e tantos outros que consideravam o Plano’s como a extensão da própria casa, era comum por ali passarem figuras como Abreu Sodré, Juscelino Kubitchek, Jânio Quadros ou José Sarney.
A paixão de Sylvia Kovarick por cavalos foi o que a aproximou do marido que jogava pólo e com quem foi a Europa para muitos torneios, caças a raposa e festas que podiam terminar de madrugada na piscina. Foram dezoito anos de casada, três filhos, más e boas lembranças. Apesar das adversidades diz não poder se queixar da vida. Lembra da casa de Campos do Jordão comprada pelo pai Alberto em 1940 onde pelas redondezas fazia trilhas a cavalo. Tem na memória também a casa de Santo André onde nasceu e morou com os pais, ele o encarregado da fabrica depois da mudança do avó para São Paulo, assim como o tempo de criança e adolescente no colégio de freiras Des Oiseaux. Ter podido sobreviver e criar os filhos às próprias custas foi bom e prazeroso. O namorado morreu já faz um bom bocado. -“Os tempos mudam. Não acho chocante. Ainda há muita gente educada, gente muito chique, gente amiga”.

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