A CASA DO 54 MOUNT STREET (14 de outubro de 2007)

Estúdio do embaixador, com sofá e
poltronas forradas com tapeçaria antiga
Ângulo do salão de baile,
com mesa de Tudor atrás do sofá

Sala de estar com peças de jade
Telas holandesas sobre as paredes de cor cereja

Sala de jantar e carvalho na parede

          

No palacete erguido por Lord Windsor, em Mayfair, final dos anos 1900, a Embaixada do Brasil se faz notar.

54 Mount Street. É o endereço desta casa, residência da Embaixada do Brasil em Londres desde 1940, plantada há mais de um século em Mayfair, um dos mais belos bairros de Londres, por Lord Windsor, o primeiro Duque de Plymouth, em terreno que até hoje pertence ao Duque de Westminster e com comodato recém renovado por mais 90 anos pelo Brasil. Lord Windsor desejava criar um exemplo de mansão palaciana ideal para uma família aristocrata e na obra, que durou de 1896 a 1899, não poupou esforços nem despesas. Nada deixou de ser pensado, desde o subsolo planejado com todos os detalhes para o funcionamento de um impecável serviço, até o andar junto ao telhado onde o elevador não alcança.
Tive a oportunidade de vivê-la, em dois diferentes momentos da minha vida e também em dois dos mais excitantes momentos da cidade, a Swinging London do final dos anos sessenta e começo de setenta, e mais de vinte anos depois, em eras pós Mrs Tatcher, quando tudo era bonança, a Europa unida enriquecia, a cidade se sofisticava e Londres vivia seus tempos de “Cool Britania”. Novos restaurantes – enfim comia-se bem na cidade - e no embate entre tradição e modernidade, eram gerados os novos usos e costumes, na arte, na musica e na moda.
Em 1969, recém casada, mudei-me do RJ para Londres onde meu marido servia como diplomata. Fui morar em Chelsea, numa mews house, uma daquelas antigas cocheiras reformadas, muito perto da King’s Road e nada mais era preciso pedir a Deus. Tinha, de forma interminável, assunto para as matérias que mandava para o Caderno B do Jornal do Brasil e foi nesse período que nasceram meus dois filhos.
A casa de Mount Street já era minha conhecida, pois ali morava, desde 67, meu pai, o então embaixador, com minha mãe e meu irmão e onde, mesmo depois de nossa volta ao Brasil, pude retornar muitas vezes pois ali permaneceram por mais de sete anos.
Já me sentia, portanto, muito em casa, quando meu marido, nos anos noventa, foi nomeado embaixador do Brasil na Inglaterra. Não parecia que tanto tempo passara quando adentramos o pórtico e subimos os sete degraus que nos levam ao imponente hall de entrada com chão de mármore preto e branco, decorado com arcos também em mármore, diferentes entre si e provenientes das pedreiras de Lord Windsor e que formam as duas galerias laterais que nos levam, à direita para a sala de jantar e à esquerda para o estúdio e para o chamado morning room. À frente, a escadaria com lance duplo que leva ao primeiro andar, onde outro hall central com chão de mármore, vai dividir o grande salão de baile à direita de duas outras salas de recepção a esquerda.
Em minha primeira semana como Embaixatriz em Londres, num frio janeiro, não pus o pé fora de casa. Custava a acreditar que, de verdade, ali estava , numa casa tão familiar e que seria nossa por alguns anos e nessa cidade tão deslumbrante. Sem medo de fantasmas que as lendas diziam circular pelos corredores, perambulei por todos os seus salões, cantos e aposentos, tentando imaginar como arruma-los, como tirar o melhor partido dos fantásticos moveis de época e das pinturas de qualidade excepcional que a casa abriga e imaginando onde poria as nossas coisas que ainda não haviam chegado do Brasil. Era uma questão apenas de toques e retoques. E ao mesmo tempo, além do prazer, um desafio.
No chamado escritório com estante e paredes revestidas de nogueira no andar térreo, mas que na verdade não era usado com essa finalidade, mudei a mesa de trabalho para uma posição central. Afinal era a mesa do Embaixador e não cabia, a meu ver, ficar de banda. Adicionei dois tapetes persas e, com duas mesas laterais, colocando-as lado a lado, improvisei a mesa de frente de sofá. No morning room, onde recebíamos para drinques antes do jantar, as paredes são revestidas de cedro com aroma adocicado e tem um lindo brilho natural. Ali pendurei algumas pinturas de nossa coleção e, em frente ao sofá, nossa mesa francesa neo-barroca com pés dourados e tampo de vidro.
Na sala de jantar, nas paredes revestidas de carvalho escuro até quase o teto e que sempre pensei em patinar clarinho, o que nunca me atrevi a fazer apesar de estimulada por minha amiga e guru, a jornalista Min Hogg, fundadora da revista World of Interiors, pendurei, para alegrar, mais de vinte gravuras botânicas que trouxera do Brasil já com esta finalidade. Pintei o que era alvenaria no alto das paredes e também o teto, entre as vigas, de amarelo, a cor de fundo da estampa das cortinas existentes e passei ali a só usar flores amarelas. É dos poucos ambientes com intervenção feita pelo segundo dono, morador desta casa entre 1919 e 1940, Weetman Pearson, o Visconde de Cowdray, um entusiástico jogador de pólo e cujos herdeiros ainda são donos do Cowdray Hounds. Foi adicionada uma segunda lareira e uma escadinha em espiral, aliás muito útil, aproximando a cozinha no subsolo da sala de jantar.
No hall de entrada, para alivia-lo de muita informação, retirei alguns dos pesados moveis de carvalho e fiz, com tecido claro e faixa transversal de listras, capas para as duas arcas que ladeiam o espaço da escada. No centro, apenas a mesa redonda que compramos no Uruguai e sobre ela um par de boxeadores em bronze, do artista alemão Waagen, também adquirido em Montevidéu quando ali moramos alguns anos antes.
No andar acima, ao pé da grande escadaria que no primeiro patamar se transforma em duas, ao fundo uma tapeçaria do século XVII, ali desde os tempos dos Cowdray e onde antes, com os Plymouth, havia um grande desenho do apocalipse feito pelo famoso pintor pré-rafaelita Edward Burne Jones. Neste andar, o chamado salão de baile com grande lustre de cristal no centro e um enorme tapete persa que havia sido usado na coroação de Eduardo VI. Para os dois sofás de veludo azulão que ali encontrei, fiz capas vermelhas de modo a que não conflitassem com o terceiro, o mais belo deles, um sofá de veludo vermelho modelo tudor. Ouvi então, de Lady Russel, embaixatriz inglesa já viúva e cujo marido fora embaixador no Brasil e na Espanha, mas ainda conhecida como grande anfitriã, que em salões de festas deveríamos usar nos estofados somente cores que embelezem as mulheres. Também segui o seu conselho de que num salão muito grande como esse, para que as pessoas se sintam bem, é preciso que os ambientes de estar estejam nas extremidades, nunca no centro, onde as pessoas se sentiriam perdidas.
Quando da visita de estado do Presidente FHC à Grã Bretanha em 1997, foi justamente esse salão, por ser o maior da casa, o escolhido para o jantar de 74 lugares que nosso então Presidente, em retribuição, ofereceu à Rainha da Inglaterra. Foi preciso esvazia-lo para instalar a longa mesa em forma de pente que, com a ajuda de dois vitrinistas da Conram Shop, decoramos com uma quantidade infinita de vasos de vidro de diferentes alturas, larguras e formatos, bambus, papiros, folhagens botânicas, orquídeas brancas aqui e ali e muitas velas também brancas flutuando na água, tudo sobre toalha de organdi dourado sobre um forro de seda claro no tom das paredes.
Ainda neste andar, as outras duas salas de estar e receber. Para uma delas, revestida até a metade com lambri de madeira clara, escolhi, para colocar no restante de parede, um papel amarelo com pássaros e cachos de uva e para as janelas, cortinas na mesma estampa. A idéia era, ao coloca-los juntos num mesmo aposento, valorizar uma coleção de pássaros e objetos de jade verde que encontrei espalhados pela casa. Na sala seguinte, onde já havia cortinas de seda branca e um grande tapete espanhol com estampa vermelho cereja, optei por pintar as paredes nessa cor. Achei que seria o fundo ideal para as grandes pinturas holandesas de fundo escuro e moldura dourada que pertencem a residência. Foi com toalhas vermelhas em mesas redondas nesta sala , amarelas na primeira e perola no hall central desse primeiro andar que montamos o jantar comemorativo dos cem anos da casa de Mount Street. Cuidei de arrumar eu mesma as flores nas cores de cada ambiente e ali conseguimos, em dez mesas, sentar os cem convidados. Entre eles, o então Viscount Plymouth – pois na Inglaterra quando morre um outro aparece - e também o então e atual Viscount Cowdray, além de alguns de seus familiares, autoridades locais e amigos inglêses. Ao final, a cada casal foi oferecido um livro com a história e um quebra cabeças de madeira com a imagem da fachada da casa.
A história também conta que no terreno, em pequeninas casas, havia morado, em 1775, um impressor e, em 1792, um instrutor de esgrima. Entre 1872 e 1884 teria ali funcionado uma venda de frutas, até que, em1896, portanto ainda no século XIX, Lord Plymouth iniciasse, com o arquiteto Fairfax Wade e a firma de engenharia Trollopes, a construção desta mansão urbana que ele desejava fosse uma lição de arquitetura residencial. Tornou-se vizinho do Duque de Westminster, que então morava no Grosvernor House, hoje um hotel de grande porte. Plymouth abdicou dos prazeres de um jardim - afinal estava a dois passos do Hyde Park - mas criou um grande terraço quadrado cheio de plantas e perfeita simetria, o que iria permitir, posto que suspenso, que no subsolo, na grande área de serviço onde fica a bela cozinha toda forrada com azulejos holandeses azuis e brancos, entrasse luz natural e que esse espaço de trabalho ganhasse uma dimensão ainda maior do que a área quadrada dos andares superiores.
Nos andares de cima, o da família e o de hospedes, tentei, usando cor nas paredes e outros recursos não dispendiosos, criar ambientes do meu agrado e onde nos sentíssemos em casa e pudéssemos bem e confortavelmente receber nossos hospedes. Nunca antes me havia sido dado dispor de tantos armários. Não só nos quartos, mas ao longo dos amplos corredores.
As vésperas de nossa mudança para Washington, depois de passados cinco anos e meio, só pedia a Deus que o dia amanhecesse bem feio e chuvoso pois seria ainda mais difícil deixar Londres, esta casa tão querida, seus empregados, alguns ainda do tempo de meus pais, se fizesse um daqueles dias gloriosos de sol. Acho que posso fazer minhas as palavras da Princesa Isabel, em carta a uma amiga, escrita ainda no navio, ao deixar o Brasil e a caminho do exílio em Portugal: -Fui tão feliz. Era demais para este mundo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

UM ESTILO PAULISTANO — SIM OU NÃO (10 de junho de 2012)

"MAXIMALISM": A SOFISTICAÇÃO SELVAGEM DE SIG BERGAMIN (20/11/2018)

MAISON DE UMA ÉPOCA DE OURO (12 de dezembro de 2010)