A ALMA DA MAISON JANSEN (16 de setembro de 2007)

Fachada da loja Jansen,
na Rue Royale 9, em Paris,
onde Stephane Boudin impôs o
seu estilo durante mais de três décadas
Stephane Boudin





Stephane Boudin
Casal Windsor, clientes fiéis de Boudin

Sala de jantar feita em 1935 para
sir Henry Channon, de estilo rococó
Bancoss estilo Luís XVI,
de 1965, de diversas formas e
assento de couro lavrado a ouro

          


Na mais influente loja de decoração européia dos anos 1900, Stephane Boudin fêz nome entre ricos e famosos. 

Stephane Boudin, filho de um passamenteiro que supria a Maison Jansen com os mais belos e luxuosos galões, pingentes, borlas, marabús e outras tantas maravilhas do mundo da passamanaria, ali aportou para um estágio em 1927 e só deixou a empresa para aposentar-se em 1960, sete anos antes de morrer.
Apesar de ter ingressado numa loja de decoração já conhecida pelo estilo “tous les Louis”, fundada em Paris ainda no século XIX em 1880 e que já participara da exposição Franco-Russa em 1899 em Moscou, da Universal em Paris em 1900, com representantes em Nova Iorque, Buenos Aires, Rio de Janeiro e Havana, um time de artesãos da maior excelência e um amplo estoque de moveis e objetos da mais alta qualidade, além de uma vasta coleção de livros de referencia, Stephane Boudin entrou para somar e para de fato estabelecer a Jansen como a mais influente e longeva loja de decoração européia do século XX. Basta dizer que pouco antes de morrer foi convidado a instalar em duas salas do Museu Metropolitan de NY, no setor de artes decorativas, algumas das mais belas “boiseries” retiradas de velhos palácios e que havia utilizado em casa de clientes.
Enquanto ainda príncipe de Gales e antes de renunciar, por amor à americana Sally Simpson, ao seu destino de futuro Rei da Inglaterra, Edward Windsor já se tinha servido da Jansen e de Stephane Boudin em sua casa de Fort Belvedere. Em Paris foi convidado pelo novo casal a mexer na disposição dos moveis da primeira casa que ocuparam no Boulevard Suchet. Logo estaria cuidando da casa de campo em Moulin de la Tuilerie. Seu carro chefe para os Windsor, no entanto, foi a famosa casa no Bois de Boulogne para onde se mudariam no início dos anos cinqüenta. Ciente da necessidade do casal em dourar a vida para sempre destituída de tronos e coroas, Boudin tratou de criar-lhes salões esplendorosos num misto entre Miami e Buckingham Palace e onde pudessem receber em grande estilo.
Pois foi nesse décor tão requintado, entre tecidos suntuosos, cortinas confeccionadas como vestidos de grande gala, chinoiseries, e boiseries do século XVIII pintadas em azul clarinho e terminação folheada a ouro, que a americana Sally Simpson brincou durante anos, se não de rainha, de hostess aristocrata e elegante, transformando a vida do marido numa sucessão de festas e jantares onde os homens viviam engalanados e as mulheres vestidas no mais belo da alta costura.
Não foram poucos os americanos atraídos por esse refinamento que tão bem a França sabia vender. Nancy Lancaster, que bem mais tarde viria a se tornar sócia de John Fowler, ao se casar com o aristocrata inglês Ronald Tree e habitar o famoso Ditchley Park , usou de seus serviços. Encantava-lhe o bom gosto e a extraordinária capacidade de Boudin em mexer com cores e de dar a elas algo de saturado ao usar pigmentos sobre camadas de gesso. Para o americano Sir Harry Chips Channon, um milionário bem posicionado no “establishment” inglês, fez para sua casa no numero 5 da Belgrave Square, um dos mais frívolos e caros salões do século XX, uma grande fantasia rococó inspirada num pavilhão do Palacio de Nymphenburg em Munique. Basta dizer que uma mesa de jantar espelhada com trinta cadeiras bem ornamentadas e algumas mesas laterais custaram a bagatela de seis mil libras esterlinas, o que corresponderia hoje a mais de meio milhão de dólares.
Também a famosa decoradora americana Elsie de Wolfe, aos setenta anos de idade e morando em Versailles em 1938, casada com um diplomata americano encomendou a Boudin uma tenda para palco de uma grande festa que pretendia oferecer. As paredes ganharam tecidos listrados e não se dispensou os belos “lambrequins’ recortados e debruados que faziam de moldura e terminação entre a parede e o teto. Muitos “black amours” faziam parte desse cenário feérico. Em meio ao jet set, ambiente que Boudin sempre se esquivou de freqüentar, e com maledicência em relação a americana Elsie, se falava nele como “o decorador da decoradora”.
William Pailey, CZ Guest, H.J. Heins, os Wrigthsman são alguns dos que passaram a solicitar a presença de Boudin nos Estados Unidos. Na Europa decorou a casa do milionário grego Stavros Niarchos. Também a famosa La Leopolda no sul da França e que hoje pertence à brasileira Lili Safra, foi por Boudin decorada quando ali reinavam os Agnellis. Para eles fez ainda a casa de Turim. Outra obra famosa foi a remodelação de Leeds Castle na Inglaterra para a americana que virou lady, Olive Baillie.
Não haveria de lhe faltar um convite de Jackie Kennedy, tão ciosa das próprias origens francesas, para decorar a Casa Branca. Embora atuando discretamente pois houve reação nos Estados Unidos à escolha de um decorador estrangeiro, ele ali deixou sua marca. Até hoje não foi desfeita uma salinha de estar adjacente ao chamado quarto da rainha, com paredes em toile de jouy azul e branco, os “lambrequins” tão de seu gosto, moveis pretos decorados com delicadas pinturas, tudo bem século XIX, uma homenagem a Madeleine Castaing e quem em 67 virou capa da House&Garden.
Profundo conhecedor da historia das artes decorativas francesas, Boudin não se repetia. Com prazer, seus clientes o escutavam e se deixavam educar. Seus ambientes, apesar da aura de esplendor, eram aconchegantes e passavam idéia de conforto. Quem não soubesse rir não aceitaria como cliente, dizia.
Depois de sua morte em 1967 o escritório de NY seguiu ativo por mais alguns anos tendo a frente o amigo Paulo Manno. Em Paris, Pierre Delbé continuou tentando seguir-lhe os passos. Em 1979 a Jansen trocaria de mãos e em seus suntuosos salões uma grande e bela exposição de moveis neo-barrocos ou “barbares” dos hoje fashion e famosos Elizabeth Garrouste et Matia Bonnetti foi o canto do cisne.

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